Relato do BRM Cristal 200km

São seis horas da manhã e há uma aquarela de ciclistas espalhada na beira da estrada. A tinta que vai pintando o asfalto é feita de matéria humana, mas a moldura do quadro que se vê é obra divina. Os pássaros deslizam suas asas sob o cinza das nuvens, um cinza espesso, mas que guarda qualquer coisa de azul, como uma saudade antiga dos tempos de infância. Essa estrada que os cento e dezesseis ciclistas estão pedalando é uma metáfora bastante precisa da vida, onde a força, a coragem e a determinação são imprescindíveis para enfrentar os obstáculos e seguir adiante. O mais importante dessa jornada não é a chegada, mas se sentir vivo a cada quilômetro. Nosso coração sabe que o termômetro da vida é a emoção, essa nuvem que faz chover na planície dos olhos e faz brotar novas paisagens a cada estação.

 CHARLES SILVA

Os primeiros quilômetros foi aquela alegria de ultrapassar e ser ultrapassado, cumprimentar e ser abençoado, extrair do vento o zumbido da velocidade e entregar as pernas ao ofício dos moinhos do prazer. E lá vai o Aislan, o de Souza, o Cardoso, o Assis, a Manuela, o Piki, o Lucas, todos na mesma toada. Lá vai o Fernando, o Bala, a Nayara, o Kaio, o Andersom, o Claudião, todos na nave louca! E olha lá o André, o Guru, o Laerte, o Ferrari, o João, o Emerson, a Luciana,  o Darley, o Bruninho, o Agney e a Júlia, todos crianças outra vez! E também vejo o Tim e o Mestre Osvaldo, agora “cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar!” Vai passar nessa avenida também eu e o Plínio, uma amizade construída durante os treinos do Pedala Mais. Pedalamos 180km juntos e isso eu preciso contar exatamente como foi, sem exagerar nem deixar os detalhes de lado.

Eu e o Plínio íamos cozinhando o galo, assistindo a missa, poupando nossos glúteos da agressividade dos selins e nossas pernas da tortura da distância. Minha namorada estava fazendo nosso apoio, dentro das regras do jogo, num pálio prata. Cerca de 10km antes do PC1, a desejada Lanchonete Campos, eu e o Plínio pegamos a roda do Bala e da Nayara e passamos a girar na casa dos 30km/h. Dois caras de mountain bike entraram na brincadeira e a coisa ficou animada. O Bala era a Maria Fumaça e nós éramos os vagões. Mas o ritmo estava tão forte que tudo não passou de cinco minutos de descontração. Mesmo no vácuo, tive que deixá-los ir e pegar carona com outra galera, que girava mais devagar.

Quando chegamos à Lanchonete Campos, encontramos vários amigos. É que na largada, naquela excitação, somos todos espermatozoides fosforescentes, e se já é difícil chamar um espermatozoide de João ou José, imaginem chamá-lo de Asdrúbal no escuro. Cumprimentamo-nos efusivamente, carimbamos nossos passaportes, tiramos fotografias, enchemos as caramanholas de água e Gatorade e nos mandamos. O Plínio queria ficar mais um pouco e não entendia a minha pressa. Então, eu disse a ele que o que acabaria com meu psicológico seria chegar atrás de uma tandem. Partimos.

Reaquecidos, passamos a girar melhor até que numa descida suave, ouvi o Plínio me chamar: “Charles, furou o pneu!” Gelei. Eu havia esquecido a minha bomba e o Plínio disse que, na falta de uma bomba descente, havia trazido uma bomba de Lego. Era só montar umas peças que a engenhoca funcionaria perfeitamente. Na primeira bombada que eu dei, a engenhoca se desmontou. “Plínio, essa bomba só presta pra encher a nossa paciência!” O Plínio pedala numa speed e tudo o que precisávamos era de uma boa bomba para válvula presta, ou pito fino, como muitos chamam. De repente, surgiu um senhor numa mountain bike. Gentilmente, ele parou e disse ter uma bomba, mas… de pito grosso. Ele disse sentir fortes dores no quadril e não podia agachar nem se curvar. Por isso, sentou-se no acostamento para analisar a situação do pneu. Minutos depois chegou uma senhora pedalando numa speed. Ela tinha uma boa bomba e o Plínio, um Lego que desmontava. Enquanto o Plínio enchia o pneu, eu brincava com o Lego. Eu disse à senhora que era o oitavo pneu do Plínio e ela ficou impressionada. O Plínio ria porque eu mentia descaradamente. Após enchermos o pneu, o senhor das cadeiras duras e a Tiazinha da bomba se foram. Eu não tirava os olhos da estrada com medo de ver a tandem. Olhei para o pneu do Plínio e confesso que fiquei desolado. Como um pneu velho, quadrado e desmilinguido suportaria os 150km restantes? Se ao menos meu amigo pesasse menos de 13 arrobas…

Para levantar o moral do Plínio, propus a ele um desafio: teríamos que ultrapassar, o quanto antes, a Tiazinha da bomba. Ele disse que isso aconteceria naturalmente, só que estava se tornando natural andarmos atrás dela. Encontramos os amigos e fiscais de prova André Fugimoto e o Carlos Eduardo. Calibramos o pneu careca da speed e partimos. Passamos a girar na casa dos 30km/h e isso nos deu novo ânimo. Ultrapassamos a Tiazinha e o Cadeirudo e logo chegamos ao Posto de Apoio, no quilômetro 90. Ali começamos a nos dar conta do quão organizada estava a prova. A equipe de apoio abastecia nossas caramanholas, abria nosso Gatorade e nos oferecia frutas. Estávamos sendo tratados como atletas profissionais, com respeito e atenção na medida certa. A disposição entre os Postos de Apoio e os Pontos de Controle estava distribuída de tal forma que nos sentíamos seguros e muito confiantes. Se alguma coisa não desse certo não seria por causa da organização. Quando vi que a prova estava “Padrão FIFA”, disse à namorada que não era mais necessário fazer apoio nos pontos permitidos. A organização estava perfeita!

Reabastecido, minha mountain bike estava rendendo mais que Miojo em dia corrido e eu elevei o giro. Já estava me sentindo um verdadeiro campeão de longa distância e havia ultrapassado a Tiazinha e o Cadeirudo (o apelido é necessário porque não lembramos seus nomes) quando ouvi novamente a voz do Plínio: “Parou, parou, furou o pneu!”. Estávamos cerca de 15km do PC2. Enquanto lamentávamos o ocorrido, avistei o Claudinho Malandro no outro lado da pista, retornando. Ele estava em sexto nessa corrida maluca. Assim que o Claudião parou, um carro também parou. O motorista desceu e pediu um gole de água a ele. Generoso, mas sem entender o que estava acontecendo, o Claudião estendeu a garrafa de água ao homem estranho. O cara devorou quase tudo e se foi. O Claudião atravessou a pista e disse: “Você viu? Esse cara de pau tomou a minha água toda!” Rimos até a barriga doer, porque o Claudinho Malandro tem um jeito peculiar de dizer as coisas.

Novamente a Tiazinha e o Cadeirudo passaram por nós. Um trio do Pedala Gama também insistia em nos ultrapassar. Enquanto enchíamos o pneu do Plínio, o Claudião nos dava notícias do acidente do João Pimenta. Como os speeds se beneficiam do vácuo alheio, era a vez do Joãozinho grudar na roda do Kaio, o moleque voador. De repente, o João deu um totozinho na roda do Kaio e foi ippon!!! Ralou bastante o cotovelo, mas Kveira que é Kaveira levanta, sacode a poeira e soca a bota outra vez! Mas o Claudinho Malandro, ao contar o acontecido, lembrou do braço do João em carne viva e teve ânsia de vômito. A cara que ele fez foi hilariante e provocou nova onda de riso em mim e no Plínio. Quando o Claudião se foi, o Plínio não conseguiu encaixar a roda traseira. Estávamos inconsoláveis, sendo ultrapassados por todo mundo e prestes a ver uma tandem. Outra vez os fiscais de prova chegaram como anjos numa TR4 branca. O André Fugimoto sacou a câmara do pneu, recolocou-a de forma correta e inflou até as 120 libras. O Carlos fez força para encaixar a roda entre os freios da bicicleta do Plínio e lá estávamos lado a lado girando outra vez.

Os dois pneus furados nos custaram 50 minutos de prova. Víamos inúmeros atletas retornando do Posto Planet, o PC2 que ainda não havíamos alcançado. Eu teria chegado ao posto uma hora antes se não tivesse levado uma âncora chamada Plínio. Mas a relação de amizade se parece bastante com um casamento e devemos seguir juntos na alegria e na tristeza. Eu sempre alegre e o Plínio sempre triste. Eu falando que tudo daria certo e ele falando que seus pneus não suportariam os 200km e muitos furos haveriam de acontecer. Ele parecia o Hardy, a hiena pessimista do desenho animado, falando eternamente: “Eu sabia que não ia dar certo… Oh, dia, oh, céus, oh, azar!”.

Quis o destino que, ao chegarmos, almoçássemos em companhia da Tiazinha da bomba. Eu engolia o macarrão o mais rápido possível, pois não suportaria ver da janela do restaurante uma tandem estacionando. Enquanto eu fui carimbar meu passaporte, o Plínio disse que iria dar uma olhada nas bicicletas e alongar as costas. Comprei água e paguei a conta. Qual não foi meu espanto quando vi na calçada as bicicletas abandonadas à esquerda e um urso de 13 arrobas roncando e babando à direita. Não sabia se ria ou se rezava para o Plínio acordar. Alguém da organização ameaçou ligar pro IBAMA, mas uma capacetada nas costelas foi o bastante para fazer o Zé Colmeia se recompor, subir na bicicleta e partir.

Nossa sobremesa foi uma ladeira de asfalto, que o Plínio ia comendo pela beirada. Estávamos a 31km do próximo Posto de Apoio e o Plínio apresentava sinais de cansaço. Reclamava do ombro, do cóccix, do pescoço, dos músculos e dos ossos. E eu tinha que acompanhar essa hiena triste e pessimista por mais 50 km. De repente, numa descida, encontramos o Cadeirudo com mais três pessoas trocando o pneu da Tiazinha. Não paramos porque a bomba Lego do meu amigo era a coisa mais inútil para se levar num Audax. Finalmente, chegamos ao último Posto de Apoio, após uma longa subida. O Plínio chegou minutos depois de mim e comeu 14 maçãs em 14 minutos. Ele comia e arregalava os olhos, cuspindo as sementes e os coroços como uma máquina desregulada.

Quando meu amigo se sentiu alimentado o suficiente para ir de Porto Alegre a Boa Vista a pé, retomamos o giro. Fomos surpreendidos por uma chuva de pingos gigantes. A temperatura baixou abruptamente, como se o freezer do céu tivesse sido escancarado. Um pouco mais a frente (soubemos após a prova) a Nayara tocava na roda traseira do Guru e também sofrera um ippon. Na queda, teve a panturrilha mordida pelos dentes da coroa. Mais tarde, no hospital, pediu ao médico para caprichar na tatuagem dos quatro pontos e escrever: GURU.

charles silva iiEu vinha curtindo a fauna e a flora, vi um gambá, um tatu bola, um tucano, um macaco prego, um quati, uma capivara e um preá. Vinha sentindo o cheiro da vegetação do cerrado, os pequis selvagens, os ipês e as perobas-do-campo. Faltando 5km para a chegada, o Plínio sentiu uma fisgada de câimbra na perna direita. Paramos. Estávamos tão acabados que se juntássemos o que nos restava de vida, daria um Pinocchio e um Geppetto. Estávamos na estrada há quase onze horas e não víamos a hora de vendermos nossas bicicletas por um real cada uma. Alongamo-nos. O Plínio dizia que o que mais queria era beijar sua esposa, que o esperava na chegada. Eu dizia que minha namorada nos esperava com uma caixa de cerveja. Apertamos o giro. De repente, surgiu o posto de gasolina com a bandeira da Petrobras. Era o fim da saga dos 200km. Nossas mulheres estavam com as câmeras fotográficas preparadas e dispararam com doçura flashes e beijos sobre nossas caveiras. E o que é melhor: chegamos antes da tandem!

O BRM Cristal – 200km foi, sem dúvida, a prova mais bem organizada de todos os tempos. Parabéns ao Marcus Vinicius, Francisco Carlos e Sérgio Rodrigo. Parabéns ao André Fugimoto, ao Carlos Eduardo, ao Hélio Henrique, Yuri, Max, Danny e a todo pessoal do apoio! Sem vocês tudo seria muito mais difícil. E meu muitíssimo obrigado ao amigo Plínio, que ouviu de mim todas as mentiras e exageros pelo caminho, mas soube levar na esportiva as brincadeiras. Uma amizade feita na estrada tem o tamanho da eternidade! Valeu, amigo!

Charles.

2 comments to “RELATO – Charles Silva”

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  1. Jussara de F.S.Padil - 23/05/2017 at 09:31 Reply

    Adorei a narrativa desses dois ciclistas, sei que não é fácil concluir os 200km.Meu nome é Jussara de Fátima Souza Padilha, moro em Curitiba PR adoro pedalar,já fiz os 200km em Florianópolis SC. Quem sabe eu irei fazer uma prova com vocês seria maravilhoso.

    Abraços,

    Jussara de F.S.Padilha

    Meu E-mail: Ju.spadilha@gmail.com

    • Randoneiro Cristal - 25/06/2017 at 15:33 Reply

      Ola Jussara,

      Que bom que gostou de nossas experiências. Temos um 200 marcado para outubro para fechar nosso calendário de 2017 e anunciar o de 2018. Se puder vir nos visitar será um prazer recebê-la.
      Recentemente realizamos nossa primeira prova de 1000km, veio uma turma pequena mas bastante animada. Quando puder visite nosso face, sempre colocamos nossa programação lá e ainda temos relatos de alguns ciclistas.

      Grande Abraço,
      Hélio

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